quinta-feira, 16 de julho de 2009

A menina mais triste de Olinda

Não tem gente que coleciona selos, moedas, botões? Então. Ele colecionava meninas tristes. De todos os lugares por onde passava. E, por causa de seu trabalho, ele andava por muitos lugares.

Existia um caderno no qual ele tomava notas sobre as meninas tristes que encontrava. Não era um diário nem
um projeto de livro, nada disso. Era apenas seu caderno de meninas tristes. Às vezes, junto das anotações, ele colava uma foto, em geral polaróides, mas era raro.

Havia a menina que não conhecera o pai, a que ficara triste desde o dia em que morreu seu gato e uma que não via graça em nada no mundo (nem mesmo numa manhã de abril?, ele perguntara; nem nisso, ela respondera – conforme o diálogo registrado no caderno). Ele encontrou meninas que não sabiam explicar a razão de sua tristeza. Eram tristes, e pronto. A maioria delas, porém, demorava a admitir isso.

O caderno falava de uma menina de Porto Alegre, que os óculos de
grau deixavam ainda mais triste, e até mesmo de uma estrangeira. Tristíssima. Uma loira chamada Irina, que ele conheceu em Dubi, uma cidadezinha perdida no interior da República Tcheca, quase na
fronteira com a Alemanha. Rota de caminhoneiros. Essa era triste
porque não conseguira escapar de uma sina familiar e ganhava a vida
da mesma maneira que a avó e a mãe: cobrava para dar alguns momentos de alegria aos motoristas que passavam por aquele lugar.
Um lugar muito triste, por sinal.

Ele era, enfim, um especialista em meninas tristes. Tanto que nunca confundia tristeza com timidez. Muitas tímidas, ele sabia, acabavam se revelando bem alegres.

Foi numa festa que ele conheceu a menina triste de Olinda, a mais triste de uma cidade conhecida pelo culto às alegrias. Era uma noite de lua muito clara, que ajudava a dar ao lugar em que estavam uma atmosfera de filme de Fellini. Nos fundos, à beira da água, erguia-se, imenso, cinzento, inopinado, um navio. Ancorado ali para sempre, feito uma homenagem monumental à inutilidade da poesia. Puro Fellini – o poeta da impossibilidade dos sonhos, a menina disse.

Ela estava sentada no chão, com as costas apoiadas na parede e as pernas encolhidas, rodeada por um bando de gente ruidosa e feliz. Mas parecia não estar ali naquele momento. Contemplava aquele navio absurdo com o olhar que reservamos para coisas que nunca mais tornaremos a ver. Feito uma estrela cadente, uma nuvem engraçada, uma certa cor de uma certa tarde, por exemplo.

Era Dia dos Namorados. E o que deixava triste a menina de Olinda era
m rapaz que vivia do outro lado do mundo, na Austrália. Pelo menos
foi isso que ele achou, como anotou em seu caderno mais tarde, no hotel. Mas estava enganado.

Conversaram sobre a vida, descobriram que sentiam falta das mesmas delicadezas no mundo. A menina triste apontou o céu, falou das constelações, contou que tivera um irmão mais velho, morto num acidente, e um cocker-spaniel chamado Olavo. Cultivava a melancolia como se fosse uma espécie de flor particular. E cultivava também, em segredo ainda, uma doença incurável.

Viram juntos o dia amanhecendo, iluminando lentamente o casario
ranco das ladeiras. Embora não fossem namorados, ganharam de presente naquele dia esse momento delicado do mundo. Ele falou de
seu trabalho, explicou por que não parava muito tempo no mesmo
lugar. Talvez nunca mais voltasse ali. Era uma pena, a menina triste disse. Ele sorriu, ela não.

Ele andou pelo mundo, viu uma cidade incendiar-se no crepúsculo, conheceu um vilarejo em que todos os homens têm o mesmo nome (homenagem a um padre milagreiro que viveu na região). Encontrou-se com outras meninas melancólicas. Nenhuma como ela, a menina mais triste de Olinda. De vez em quando, ele se lembra dela. Planeja voltar para vê-la, o que nunca acontece.

Ele nem sabe que ela não está mais entre nós.

Se a noite é estrelada, ele olha para o céu, mas, sem a ajuda da menina triste de Olinda, não consegue identificar nenhuma constelação. Um gesto inútil, que não leva a parte alguma. Igual ao navio ancorado nos fundos do lugar em que os dois se conheceram.

*Marçal Aquino é jornalista, escritor e roteirista dos filmes
Os matadores, Ação entre amigos e O invasor

2 comentários:

Leandro disse...

Bem cinematográfico mesmo.

Anônimo disse...

vc abandonou minha paixão...
onde está vc?!
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