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.E se o tempo for te levar, eu sigo essa hora e pego carona pra te acompanhar


. Ela é dele
E ele?
Ele é do mundo!
Eita coração fraco Valentina!
Como dói gostar de alguém e e esse alguém não ser seu
Esse alguém não ser de ninguém
Ser apenas do tempo.
Ah esse tempo, que toma as vontades alheias pra si,
Consegue roubar o que jamais pensávamos que conseguiria
Valentina, ele é cruel.
Te tomou o que já te era certo.
Já pediu ao tempo ele de volta
Sei que já chorou
Implorou
Pediu com jeitinho
Mas ele é teimoso e gosta de uma encrenca.
Tempo complicado e cheio de manhas
Tempo, o devolva
Pode ser via correio
Dentro de uma caixinha
Com um pouco de felicidade
E umas fitas coloridas
Alegre o dia de Valentina
Pois de tanto sofrer, seu nome já não te faz jus
E de tanta tristeza, já se fez cinza os seus dias.

Ian


Ian nasceu!
E com ele trouxe uma mala cheia de alegria e sorrisos
Aqueles sorrisos bobos
Juntamente com aquele cheiro de bebê que invade toda a casa
Que as vezes é tão bom e outras nem tanto assim!
Primeira roupinha
Primeiro sapatinho
E o primeiro banho?
Ian, como você nos deixou bobos,
Como você deixou essa tia coruja
Ian,como você mudou nossas vidas
Que coisa boa esse sentimento
Como alguém tão pequeninho,careca e sem dente pode me deixar assim?
Ah, essa vontade de chorar de alegria e contar que nasceu o bebe mais querido

Ian, meu lindo, Bem vindo!
Que as coisas mais belas desse mundo sempre te façam presente
Que as pedras do seu caminho sejam somente pedras
Que os sorrisos sejam sinceros
E as gargalhadas de tirar o fôlego
Que a sua vida seja feita de abraços apertados,
Mas que o mais apertado seja sempre o meu - Porque a tia é ciumenta!-
Que sua vida seja feita de verdades
Pq mentira de nada serve!
Que você tenha filmes preferidos e livros de cabeceira
Que tenha muitos plásticos bolha
Que seja ator, escritor, astronauta, médico, filósofo, médico...
Seja tudo o que você quiser ser.

Ian, te desejo tdas as coisas bonitas

Te amo viu








"Serás vida... bem vindo
Serás vivo... bem vivo
Em mim"

Coisa de Mulher


Quem foi que disse
Que homem nao gosta de flor
Que nao acha o por do sol lindo
Qual homem nunca dormiu chorando?
Qual deles nunca acordou sorrindo?

Quem te falou que pra ser homem de verdade
nao pode sentir medo
nem tremer a ponta dos dedos
Nem sentir saudade

Confesso que a gente não nasceu com a manha
Que nem mulher quando se assanha
pedindo um pouco de carinho
Chega faceira, devagarinho
Faz um chamego, bebe uma taça de vinho

Não muito diferente do cabra valente, infezado
Basta pôr o amor do seu lado
logo recebe um cheiro no pé do pescoço
Vai ver ficar manso o cabra que era um grosso

Tem que acabar com esse negócio
de tanto casamento, tanto divórcio
que fulano é, ou fulana não é,
que isso é coisa de homem,
que aquilo é coisa de mulher

Quero encher o peito e soltar o grito
E entrar na igreja todo bonito
Ir até o padre e dizer Amém..
Se isso é coisa de mulher,
eu quero ser mulher também.

(Pietro Leal)

Essa menina...




Ah, essa menina...
Ela tem pés no chão e asas para voar,
Tem um largo sorriso em sua boca na maioria do tempo e algumas tempestades quando é de seu gosto,
Gosta do azul de todas as outras cores,
Tem o sonho de rodar o mundo e por vontade ficar,
Não gosta de estar presa, mas quer alguém ao seu lado,
Ahh essa menina, tem o doce e o amargo em seus lábios,
Tem em suas mãos uma caneta e o tempo para transformar linhas tortas em um emaranhado de cores
E em seu peito tem uma parte completa faltando um pedaço.
Tem em seus pensamentos letras,palavras e símbolos que pouco depois tornam-se em o que não consegue dizer em frases certas sobre o que sente e o que só conhece por nome.
Ah, essa menina, podem roubar suas geladeira, sua cama, seu sofá, tentar roubar seu sono, mas seus sonhos ninguém pode tirar, são dela, , ela os criou, os alimentou e os faz crescer, nasceu com eles e com eles irá findar.
Menina, tu tens teus sonhos na mão e um pedaço faltando no peito

Eu vou


Se você me falasse "-Vem", eu iria, iria sem pensar duas vezes.
Sem me arrepender.
Eu iria com um sorriso largo no rosto e com o coração batendo mais forte de que o coração de um beija-flor.
Iria, iria na mais absoluta certeza.
. Quando eu tinha uns 10 anos, meu sonho era ter 15 anos
Aos 15, meu sonho era ter 18
E hoje, aos 20 quase 21 meu sonho é voltar aos 10 anos
Sabe por quê?
Porque eu tinha tempo!
Isso, tempo!
Nunca pensei que ia sentir tanta falta do tempo como agora.
Queria voltar a tomar banho de chuva no verão, queria tempo para ver meus amigos que mesmo morando perto de casa quase não os vejo, queria sentar no sofá de manhã de pijama e meia no pé e ficar ali, a manhã inteira assistindo desenho com um prato de sucrilhos no colo, queria ter tempo de andar, passear, de ver o por-do-sol sem ser por detrás da janela do ônibus, queria dormir mais, ter menos olheiras, falar mais besteiras, pensar menos em trabalho, ter menos responsabilidades, menos contas a pagar.
Não, eu não estou reclamando, só queria o meu tempo de novo. O MEU tempo.
Por favor, me devolvam o meu tempo!



Ceci, minha querida, desculpe pela demora da resposta de sua carta, venho de uma viagem a Irlanda e somente hoje, após meses que a retorno.
A estada em sua casa me trouxe somente coisas boas, como a descoberta de que sei íntar uma parede, já que foi a primeira vez que tentei pintar uma. Sinto falta do vinil do Chico Buarque em plena 3 da matina à tocar, tal chico que tornou-se trilha sonora das nossas delicisas conversas com sabor de vinho comprado no bar da esquina de seu apartamento - Continuam tocando aquele samba com tom de embriaguês?- Era realmente engraçado ouvir sua risada gostosa após alguns copos. Sinto falta de sua vontade desesperada de comer brigadeiro, muitas vezes no meio da noite e quanto a toalha xadrez, bom, esse é um segredo que vou levar ao tumulo.
Mon Petit, essa viagem a Irlanda me fez muito bem, pude pensar em coisas que não pararia para pensar, pude sentir coisas que eu não sabia o que era. Saudade foi uma delas, e cá entre nós, dói sentir saudade. Senti falta dos dias que passei com você, senti sua falta. Sei que ir embora daquele jeito sem cumprir algo que te prometi foi um grande erro, mas agora quero arrumar seu chuveiro, arrumar o encanamento,aprender a fazer brigadeiro de panela sem queimar, quero voltar e arrumar o que tiver que arrumar, quero ficar, quero estar com você quando voc~e enjoar da parede laranja e quiser pintar de outra cor, quero ajudar a escolher esa outra cor, quero estar com você!
Volto à São Paulo em um mês, queria te ver me esperando no aeroporto com aquela sua blusa de lã que me fazia espirrar.

De seu
Pietro

Ps: Ainda tem aquele vinil do Ben?

Nina!



. Nina Nina Nina.
Nina havia se arrependido novamente.
Vivia de paixões imaginárias que passaram em não mais que um mês, as vezes até menos, por outras vezes, davam até certo mas o tempo era menor que um mês pra ela enjoar. Gostava de uns tipos estranhos, complicados, cheios de problemas a resolver. Sorria bobamente pelas ruas, imaginava cenas, treinava dialogos a frente do espelho, claro que nem metade do ensaio todo dava certo. Na hora tremia, gaguejava. Nina era timida, odiava a sua timidez excessiva, irritava-se consigo mesma numa revolta cheia de xingamentos internos que muitas vezes evoluia pra arrependimentos e um sentimento estranho de "nada deu certo".
Apesar de seus 20 e poucos anos, Nina era uma moleca, tão diferente das moças de sua idade. Nina odiava salto, achava desnecessário e desconfortável, era um sofrimento quando pensava em salto. Progressiva? Escova inteligente? Seus cabelos curtos, levemente cacheado nas pontas era o que lhe era necessário, gostava deles assim, do jeito que era.
Talvez se ela parasse de se preocupar, talvez se ela parasse de procurar defeitos e parasse de olhar os pés alheios. Ela só não queria frieira no pé e perfeição.
ê Dona Nina, e da sua vida? quem vai cuidar?

A menina mais triste de Olinda

Não tem gente que coleciona selos, moedas, botões? Então. Ele colecionava meninas tristes. De todos os lugares por onde passava. E, por causa de seu trabalho, ele andava por muitos lugares.

Existia um caderno no qual ele tomava notas sobre as meninas tristes que encontrava. Não era um diário nem
um projeto de livro, nada disso. Era apenas seu caderno de meninas tristes. Às vezes, junto das anotações, ele colava uma foto, em geral polaróides, mas era raro.

Havia a menina que não conhecera o pai, a que ficara triste desde o dia em que morreu seu gato e uma que não via graça em nada no mundo (nem mesmo numa manhã de abril?, ele perguntara; nem nisso, ela respondera – conforme o diálogo registrado no caderno). Ele encontrou meninas que não sabiam explicar a razão de sua tristeza. Eram tristes, e pronto. A maioria delas, porém, demorava a admitir isso.

O caderno falava de uma menina de Porto Alegre, que os óculos de
grau deixavam ainda mais triste, e até mesmo de uma estrangeira. Tristíssima. Uma loira chamada Irina, que ele conheceu em Dubi, uma cidadezinha perdida no interior da República Tcheca, quase na
fronteira com a Alemanha. Rota de caminhoneiros. Essa era triste
porque não conseguira escapar de uma sina familiar e ganhava a vida
da mesma maneira que a avó e a mãe: cobrava para dar alguns momentos de alegria aos motoristas que passavam por aquele lugar.
Um lugar muito triste, por sinal.

Ele era, enfim, um especialista em meninas tristes. Tanto que nunca confundia tristeza com timidez. Muitas tímidas, ele sabia, acabavam se revelando bem alegres.

Foi numa festa que ele conheceu a menina triste de Olinda, a mais triste de uma cidade conhecida pelo culto às alegrias. Era uma noite de lua muito clara, que ajudava a dar ao lugar em que estavam uma atmosfera de filme de Fellini. Nos fundos, à beira da água, erguia-se, imenso, cinzento, inopinado, um navio. Ancorado ali para sempre, feito uma homenagem monumental à inutilidade da poesia. Puro Fellini – o poeta da impossibilidade dos sonhos, a menina disse.

Ela estava sentada no chão, com as costas apoiadas na parede e as pernas encolhidas, rodeada por um bando de gente ruidosa e feliz. Mas parecia não estar ali naquele momento. Contemplava aquele navio absurdo com o olhar que reservamos para coisas que nunca mais tornaremos a ver. Feito uma estrela cadente, uma nuvem engraçada, uma certa cor de uma certa tarde, por exemplo.

Era Dia dos Namorados. E o que deixava triste a menina de Olinda era
m rapaz que vivia do outro lado do mundo, na Austrália. Pelo menos
foi isso que ele achou, como anotou em seu caderno mais tarde, no hotel. Mas estava enganado.

Conversaram sobre a vida, descobriram que sentiam falta das mesmas delicadezas no mundo. A menina triste apontou o céu, falou das constelações, contou que tivera um irmão mais velho, morto num acidente, e um cocker-spaniel chamado Olavo. Cultivava a melancolia como se fosse uma espécie de flor particular. E cultivava também, em segredo ainda, uma doença incurável.

Viram juntos o dia amanhecendo, iluminando lentamente o casario
ranco das ladeiras. Embora não fossem namorados, ganharam de presente naquele dia esse momento delicado do mundo. Ele falou de
seu trabalho, explicou por que não parava muito tempo no mesmo
lugar. Talvez nunca mais voltasse ali. Era uma pena, a menina triste disse. Ele sorriu, ela não.

Ele andou pelo mundo, viu uma cidade incendiar-se no crepúsculo, conheceu um vilarejo em que todos os homens têm o mesmo nome (homenagem a um padre milagreiro que viveu na região). Encontrou-se com outras meninas melancólicas. Nenhuma como ela, a menina mais triste de Olinda. De vez em quando, ele se lembra dela. Planeja voltar para vê-la, o que nunca acontece.

Ele nem sabe que ela não está mais entre nós.

Se a noite é estrelada, ele olha para o céu, mas, sem a ajuda da menina triste de Olinda, não consegue identificar nenhuma constelação. Um gesto inútil, que não leva a parte alguma. Igual ao navio ancorado nos fundos do lugar em que os dois se conheceram.

*Marçal Aquino é jornalista, escritor e roteirista dos filmes
Os matadores, Ação entre amigos e O invasor




.Para o olfato



.Para o tato





.Para a audição




. Para a visão



. Para o paladar





. Para todas as coisas "O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN"