terça-feira, 23 de março de 2010


. Hoje me bateu uma vontade de visitar meu antigo Fotolog, de rever fotos, textos e relembrar muitas coisas que passaram e deixou boas lembranças e dessas boas lembranças encontrei esse texto que um certo moço a quase 2 anos me deu. Lembro que na época eu o achei maravilhoso e hoje continua sendo a mesma coisa. Hoje, depois de alguns anos, o agradeço novamente.



.A Suzana Araujo( ou Nana)

Como qualquer ser desiludido, julgava-me incapaz de amar novamente. Coisa de moço jovem e descrente em qualquer emoção ou sentir. De modo que acordar e pensar em qual livro ler, como há der ser o café-da-manhã, qual emprego arrumar... era tão-somente o que eu racíocinava, ponderava e o mais de vocábulos que podem exprimir tal ato. Sentia-me tão bem na solidão, era fato. Deleitava-me decerto quando, horas e horas a fio, reuníamos-nos eu; o livro; o silêncio, às três da madrugada. Isto purificava minha triste alma e alimentava meu arrogante cérebro.

Engraçado é que até a solidão tem seu fim, como o amor. De repente, eu ouvia uma voz não a minha, algumas palavras não me escritas. Risadas, sorrisos, afetos e umas três ou mais infinidades de coisas que, mesmo não me vindas, acalmava meu ser de maneira absolutamente nova. Ficava estático quando ouvia essa voz macia e alegre. Bobo quando lia suas palavras. Ria do seu sorriso. Tudo numa sinceridade tal que eu, tão-amante da vida e das coisas, nunca antes tivera tido.

Assim, com o livro e o silêncio intriguei-me. O livro, já não ia metodicamente na madrugada lê-lo. Ia sim. Mas, de-manhã e algumas vezes só. Ele sentia isso e, como que num cíume, não deixava eu o ler. Nele ,de-repente, apareciam sintaxes mal elaboradas, linhas tortas. Às vezes fechava-se sozinho sem nenhum esforço ou virava de propósito a próxima página. Tudo um para que eu não o lesse mesmo. E o silêncio, havia tempo que não vinha me ver. Eu chamava-o, chamava-o para me ajudar na "reflexão" e ele ( com todo seu descaso) nada de ouvir-me. Com o silêncio já havia rompido mesmo. Só ouvia por ora barulhos, latidos, carros velozes. Como eu dissera antes, até a solidão tem seu fim. Esse era o meu com ela.

Então, comecei apenas a ler. Não o livro, mas sim os olhos, cuja dona deles - eu confesso - tirou-me daquela solidão. Sim. E era altamente bom isso. Eu lia os olhos dela. Eu, no silêncio só por nós conhecido, dizia coisas a ela que a palavra não era capaz de fazê-lo. Dizia tudo o que me era verdadeiro e ela entendia e, no silêncio também, dizia-me tudo e o mais que eu em dobro. Não havia mais saída. Estava - e era-me inverossímil negar - preso a ela. Porque, depois disso, já nos meus "acordares" era naquilo (naquela) que eu pensava. Não sei qual a razão. Vá lá, acredito que era mesmo coisa de destino, como seu eu fosse ( desde deste exato momento) destinado para pensá-la e a senti-la e a querê-la demasiadamente. Alguma voz divina ou metafísica tal como: " A partir de hoje tu hás de tê-la n'alma e no peito durante todo o eterno". Repito, não sei como, mas era logo de-manhãzinha. Ela me despertava e abria meus olhos ao mundo. Por isso - mas não somente por isso, é claro - comecei a entender sua real importância para mim e a desejá-la, a desejá-la... o quanto mais perto possível. Sucede que, para terminar estas longas palavras, eu estava errado. De acordo com o descrito no início eu estava muitíssimo errado. Perceba o quanto é engraço e irônico esse mundo.




Marcio dos Anjos

Um comentário:

David's Science disse...

Lindo e simples. Muito bom